segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Aproximando o foco do fenômeno da individuação


Você se lembra que, na faculdade, ou em qualquer curso de administração ou de organização, quando alguém fazia referência à estrutura de uma empresa ou de um negócio, invariavelmente as pessoas se referiam a uma pirâmide; a famosa pirâmide organizacional! De onde vem essa imagem? Ela vem do antigo Egito. Nas nossas lições de história geral, aprendemos que quem morava no topo da pirâmide egípicia era um ser meio humano, meio divino, o faraó.

O faraó era o centro do universo, era o possuidor de tudo no império, das terras, dos rios, das pontes, dos animais, da vida e da alma das pessoas e não precisava prestar contas a ninguém. Quando morria levava para o túmulo seus auxiliares mais próximos. Essa figura concentrava em si os poderes teocráticos, jurídicos, econômicos e administrativos. Enfim, era como um "eu coletivo" para todas as pessoas. Essa é uma imagem tão arquetípica para a humanidade que se reflete em todas as culturas e civilizações – note que sempre existiu a necessidade de os seres humanos, num determinado estágio do seu desenvolvimento, apelarem para um "eu coletivo" que os represente. Esse fenômeno também é perceptível na organização social de alguns animais, como as abelhas, as formigas, numa matilha de lobos ou num bando de macacos. A diferença é que, na medida em que se tornamos mais evoluidos cultural e espiritualmente, nós, os seres humanos nos libertamos desse "eu coletivo".

Senão, vejamos: se avançarmos um pouco mais na história das civilizações, quais são os fatos que constatamos? Que esse poder total detido pelo faraó sofreu o primeiro baque na Grécia, com a Democracia. Pois o ser humano, nesse estágio, já podia pensar por si – o nascimento da filosofia e da lógica é uma conseqüência disso. Roma, a civilização seguinte, incorpora a noção do direito civil, criando o conceito de direito de propriedade, o que abala ainda mais o poder do faraó originário. Com a estruturação do cristianismo, o poder teocrático, que era também centralizado no faraó, se desfaz.

Para encurtar a história, temos, ao longo da Idade Média, intensas lutas envolvendo a igreja e reinados para consolidar o poder temporal sobre nações e regiões. Vemos, a seguir, nas revoluções americana e francesa, os ideais dos direitos do homem e dos princípios de Liberdade, Fraternidade e Igualdade a serem inscritos como valores fundamentais do ser humano. Esses princípios, ainda que consagrados, ainda não estão implantados nas sociedades de todo o mundo, mas vêm-se tornando, a cada dia deste século, mais presentes na medida que as pessoas se emancipam e o maniqueismo ideológico se evapora.

Isso se deve, em grande parte, à incorporação aos processos decisórios, individuais e coletivos, de amplos setores sociais (primeiro, os escravos, enfim libertos, depois as mulheres, as crianças e as minorias). Na medida que a individuação se torna um vetor universal, os valores mais tipicamente humanos (e os da Revolução Francesa são um bom exemplo disso) tornam-se mais importantes. É por isso que, hoje, de uma simples idéia – e não apenas do capital acumulado – pode nascer um império, como a Apple norte americana. Alguém imaginaria isso possível tempos atrás? Não, nas fases anteriores, era preciso juntar tostão por tostão para criar uma grande empresa.
Idéias, valores, símbolos – estes são o grande capital da nossa era. É disso que se alimentam as pessoas, é isso o que elas procuram: identidade com as demais pessoas, com as empresas, com as marcas, com um ideal, com os produtos e com os serviços. Esta é a marca do novo tempo, uma megatendência que influenciará, daqui para frente, todas as outras. O impalpável, o simbólico, o espiritual ou o tipicamente humano é o que predominará nas próximas décadas. As artes terão mais valor do que os esportes, a sensibilidade e a beleza serão cada vez mais procuradas, a ética não poderá ser descartada jamais, a verdade e a transparência serão cada vez mais valorizadas nas relações.

Não podemos predizer a velocidade com que essas características da individuação se instalarão na vida das pessoas e das organizações, mas que essa tendência é um fato incontestável, não temos dúvidas – apesar dos faraós renitentes que ainda não perceberam que até podem ser donos da mão de obra que as pessoas representam, mas não podem ser donos dos seus pensamentos e dos seus sentimentos.


Se apelamos para essa rápida digressão histórica foi para mostrar essa tendência inexorável no sentido da individuação do ser humano, e que as empresas que insistirem em o paradigma antigo nos seus processos de gestão sem levar em conta esse megatendênciaa estão, na contra-marcha da história.

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